O que eu aprendi depois de um ano vivendo com menos

O que eu aprendi depois de um ano vivendo com menos

Um ano atrás começavam as minhas idas ao hospital e inúmeras consultas médicas para tentar descobrir o que havia de errado comigo. Fiz todos os exames possíveis e nada aparecia. Era difícil aceitar os tantos “é coisa de sua cabeça” que eu ouvia, mas minha ansiedade não era novidade. Os ataques de pânico, entretanto, me assustaram. Eu precisava mudar a minha vida – ou, pelo menos, a forma com a qual eu encarava as coisas. E, assim, esse se tornou o meu maior objetivo.

Eu nunca imaginei que parte tão significativa do meu estresse vinha de coisas. Produtos. Tralhas. Em um primeiro momento, atribuí meus problemas unicamente a fatores emocionais, como o peso da fase adulta, o meu (então) eterno não-sei-o-que-quero-da-vida e ao fato de estar sozinha. Foi um choque perceber uma melhora simplesmente ao me livrar de algumas coisas.

Eu também nunca me considerei uma pessoa com muitas coisas. Como a maioria das pessoas com quem eu me relacionava sempre tiveram mais do que eu, eu desenvolvi um pensamento de que o que eu tinha era pouco. Mas a verdade era outra. Eu tinha demais.

Não me entendam mal – eu não vejo problema algum em uma pessoa ter muitas coisas. (O que me incomoda, na realidade, é o descarte e a troca em excesso, mas deixemos esse assunto para outra ocasião.) Eu até gosto de ter muito de algumas coisas, como já mencionei nesse post sobre minimalismo. Experiências são legais, mas produtos podem ser muito legais também. A questão toda é que minha vida estava um caos.

E, gente, eu odeio caos. Eu sentia tudo errado. Não conseguia me achar em nada; nem me olhando no espelho, nem estando na minha casa, nem consumindo meus livros/CDs/DVDs. Eu preciso de um mínimo de organização para funcionar. E essa organização não se limita a uma simples arrumação. Eu precisava me encontrar.

Em um dia qualquer, eu simplesmente peguei todos os materiais da minha primeira faculdade e joguei fora (eu não terminei aquele curso, afinal de contas). Parti para a seleção dos materiais do curso finalizado. Isso tudo desencadeou algo em mim que é difícil explicar, mas começou a resolver muitos dos meus conflitos, inclusive, com relação a carreira.

Aos poucos, eu fui aplicando a mesma ideia em outros setores, como quando mexi no meu guarda-roupa. Comecei, aos poucos, a priorizar o que fizesse com que eu me sentisse bem. Busquei o que pudesse acrescentar positivamente na minha vida. Não existia uma Bruna naquele vestido vermelho estilo praia ou naqueles saltos. Eu não precisava de esmaltes com cores vivas quando eu mal usava os escuros. Eu não queria manter 200 livros quando só 10 deles tinham mexido comigo. Mandei muita coisa para doação e vendi outras tantas.

Foi aí que eu descobri que muito da minha ansiedade vinha exatamente da minha característica de manter o que eu achava que me era indiferente. Um sentimento todo era gerado simplesmente pelo fato de eu ter um armário cheio de roupas que não me agradavam e uma estante com livros para enfeite.

Todo esse processo foi muito importante para mim porque, mais do que descobrir que eu preciso de pouco para viver bem (já que, apesar de ter muito, eu usufruía de um pequeno percentual daquilo), eu descobri que eu me sinto melhor vivendo dessa maneira. Eu não comecei uma mudança porque alguém me disse que viver com menos é melhor (ou mais inteligente) ou porque o minimalismo está em alta (nem sou uma pessoa minimalista). Comecei pela necessidade de me conhecer e conhecer um modo de vida que me deixasse confortável. Eu finalmente entendi que eu não preciso de coisas que eu escuto precisar todos os dias. E, não, eu não acho ruim uma pessoa ter uma coleção gigante de DVDs, por exemplo, mas era ruim para mim. Era estressante sem eu nem mesmo saber. Estava fora do meu equilíbrio.

Mais do que uma limpa na casa, foi uma organização que se estendeu para o meu modo de lidar com as minhas inseguranças. Pela primeira vez na vida, eu parei de me importar com a opinião dos outros ou o que quer que possam vir a pensar de mim. Eu não tenho nada a provar a ninguém e isso me deixa leve. Eu saio de casa da maneira que eu quero. Eu ignoro tendências (de quaisquer naturezas) que não têm relação com meus valores e estilo de vida. Eu presto mais atenção nas batalhas que as pessoas ao meu redor estão enfrentando. Eu valorizo mais cada coisinha.

Não me entendam errado, eu ainda tenho uma quantidade significativa de coisas – das quais, inclusive, eu não pretendo me desfazer –, mas todas essas coisas me fazem bem. Eu sei que não preciso de muitas roupas, mas que, por eu nunca ter sido uma pessoa ligada em moda, montar um armário cápsula exigiria muito de mim (ainda mais sem ver necessidade). Eu uso uma quantidade considerável de produtos de cuidados pessoais. Mas eu me sinto confortável com a quantidade de coisas que eu tenho. Eu me sinto confortável porque eu estou dando uso a tudo o que eu tenho. E isso faz com que eu me sinta melhor comigo mesma.

Eu jamais vou dizer para você se desfazer das suas coisas ou parar de comprar outras, mesmo que alguém ache que você não precisa delas. Eu não preciso realmente do adesivo decorativo e do cordão de luzes que estou prestes a comprar, mas eu não aguento mais meu quarto sem graça do jeito que está. Vou gostar de acrescentar algumas coisinhas lá, isso vai me fazer bem e, portanto, vale a pena. Se uma pessoa se sente mais confiante usando vários produtos ou vê maquiagem como uma necessidade, não tem absolutamente nada de errado com isso. E eu acredito que esse seja exatamente o balanço que a gente precisa – ficar entre o “necessário para existir” e o “excesso”.

Por agora, estou fazendo o meu melhor para que cada compra seja bem pensada, com propósito. Isso tem me deixado melhor emocionalmente e, claro, tem tido um reflexo positivo na conta bancária. É raro eu gastar dinheiro em coisas que eu não queira realmente ou que eu não preciso. Não faz mais sentido. E, por mais que meu propósito inicial não tenha sido economizar dinheiro (nunca vai ser, nesse caso), é um bônus que descobri ser interessante.

Hoje eu tenho o suficiente, que inclui um extra que me faz bem. E o meu suficiente pode ser pouco ou muito para outra pessoa, já que cada um de nós encontra um equilíbrio diferente.

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  • Duane Buture

    Bruna, eu entendo perfeitamente o que você passou, porque passei por isso também. Eu tinha MUITA coisa, mas achava que tinha pouco por me comparar com pessoas que tinham ainda mais. E isso é uma bobagem enorme, né? Não tem como ficar se baseando no outro. É que nem você disse: pra gente, guardarroupa cápsula não funciona, e que saber? Tá tudo bem! Meu processo de organização aconteceu após a leitura do livro A Mágica da Arrumação, que, juro, FUNCIONA. É um método que faz você manter apenas o que gosta e/ou é útil. Exatamente o que você fez. Parabéns por estar lidando com tudo isso de forma tão madura. Muita gente não consegue fazer o que você está fazendo: ter coragem de mudar. E, mais uma vez: obrigada por esse post maravilhoso!
    Beijos!

  • Oi Bruna
    Que maravilha vc poder se ver, poder analisar sua vida!
    Às vezes na correria a gente n se prioriza
    Fico feliz com sua ‘nova Bruna’, seu ‘eu’ consciente
    O que precisamos é viver com o que nos faz bem, seja com pouco ou com muito
    Eu me mudei tem 01 mês , me livrei de muito peso ao fazer a mudança, nos primeiros dias ainda achei mt coisa desnecessária e ainda sinto que preciso me desfazer de mais coisas p dar lugar a coisas novas…
    Que a gente se sinta bem, se conheça, se transforme e seja feliz!!!

    Bjooooooos
    muitospedacinhosdemim.blogspot.com.br

  • Que lindo texto e reflexão, Bruna! É impressionante como a gente não se da conta de como o acúmulo desnecessário nos faz tão mal. Nos torna meio presos e sem foco. Que bom que conseguiu se libertar disso e vem melhorando a cada dia! Adoro seus posts <3

    http://www.redbehavior.com

  • Entre Anas

    Que post amorzinho, aliás, seu blog é muito amor! <3
    Passamos a vida sem perceber o quanto as coisas estão nos puxando para trás, sugando nossas energias ou tomando conta dos nossos propósitos. E, como você disse, não é questão de ser minimalista, jogar tudo fora, ir viver no meio do mato, mas encontrar seu próprio equilibrio <3

  • Teorias d’ela

    R: Não desistas de tentar pois existirá uma tentativa em que vai dar certo. Teres começado pela alimentação já é um bom início 🙂

  • Kelen Vasconcelos

    Olá Bruna!
    Fico feliz que vc tenha se redescoberto, isso bem legal.
    Tenho certeza que agora vc está mais a vontade consigo mesma e com a sua casa, o seu quarto.
    Na verdade estamos sempre mudando sabe… de opinião de ideias e sonhos também. O importante é vivermos o hoje dentro daquilo que escolhemos para nós mesmas e sermos felizes.
    Bjos
    http://www.kelenvasconcelos.com.br/

  • O importante é o que você disse: sentir-se bem com o que tem. Também to numa vibe de me livrar de algumas coisas. Comecei com roupas e livros, que não estavam agregando nada aqui em casa. AJUDA DEMAIS ISSO! Que bom que assim você conseguiu controlar sua ansiedade =D

  • Oi Bruna! Passei por processo semelhante e foi muito bom pra mim tb. Quando me mudei de cidade só trouxe 1/3 do que tinha no guarda-roupa e doei o resto, foi maravilhoso e nada me fez falta.
    E muitas das minhas coisas ainda estão na casa do meu pai e eu vi que dá pra viver com menos mesmo e mesmo coisas que achei que sentiria muita falta não me fazem nenhuma!
    O importante é mesmo nos sentirmos bem e não deixar a vontade de ter mais coisas nos consumir. 🙂
    Fico feliz que tenha sido bom pra sua ansiedade! 😀

  • Viviane Oliveira

    Bru, sua linda ❤

    Os seus posts sempre são um exemplo para mim, de verdade. Primeiro, eu espero que você esteja melhor (já fiquei preocupada aqui com o que disse lá no início). Eu acho um máximo quem consegue se desapegar das coisas assim ainda mais quando contribui para ter uma qualidade de vida melhor. Estou mega feliz por ti.

    Beijão, babe

  • Poxa, Bru! Tô pra ler um texto teu e não me identificar! Tenho passado por isso nos últimos dois anos, não tenho comprado tanto e o que compro é o que eu realmente preciso. Eu vejo aquilo e desejo por 2 segundos até eu me perguntar: “você precisa disso?” e eu acabo com isso apenas negando com a cabeça. Claro, o que é suficiente pra mim, não é suficiente pra outra pessoa, mas eu me sinto bem com o que é suficiente pra mim e isso basta. Além de conseguir me organizar mentalmente e não ter mais tanta coisa acumulada que comprei apenas por comprar, eu economizei no bolso e isso é ótimo!
    Adorei a reflexão <3

    Beijão, mariasabetudo

  • Carol Espilotro

    oii bru, por coincidência eu venho novamente de um estagia de hospital e desde dezembro tô fazendo diversos exames e indo em médicos. E é claro, sei que é nada, sei que é psicológico. Como você, sei que sou ansiosa e também tenho depressão, aquelas tristezas ruins. Não sei muito bem o que fazer par ficar bem, já que até me desfazer de coisas e limpas faço sempre, mas no fim sempre volta :/ Minha mãe fala que tenho demais, mas o que? ótimo texto

    bjs, Carol | Espilotríssimo
    http://www.carolespilotro.com

  • OOOOOOOOOI BRUNA

    quando eu comecei no meu primeiro emprego, eu ganhava relativamente bem, mas me comportava como uma criança dentro da RiHappy com um cartão de crédito sem limites: Eu comprava muito. Muita coisa inutil, muito do que eu não precisava, muito do que eu nem usava. E a gente vai se sentindo mal mesmo com isso.
    Hoje não cheguei ao seu patamar, mas tenho conseguido entrar numa loja, pegar dois produtos e perguntar a mim mesma: “Eu realmente preciso disso? Porque? Pra que?”. E as vezes saio com um deles ou até mesmo nenhum.
    Fico feliz que a sua vida tenha melhorado nessa dimensão. A minha também vem caminhando pra isso, mas preciso parar de gastar com comida, fato. Essa é minha próxima meta 🙁

    beeeeeeijo
    beinghellz.com

  • Oi Bruna, tudo bem?
    Que bom que você encontrou o seu equilíbrio. Esses tempos fiz algo parecido, pois comecei a perceber que muito das coisas que tinha, eu não precisava delas, então resolvi retirar algumas delas, mas sem pressão ou obrigação, foi uma atitude completamente natural.
    Acho que quando mantemos aquilo que realmente importa, nossa vida chega a ser até mais leve.
    Abraços,
    Amanda Almeida

  • Bruna, seu post me fez me sentir tão bem! Sei lá, ver que você tá conseguindo se sentir mais leve, se livrar do que pesa ao seu redor… Cara, queria atingir esse ponto também!
    Eu tenho muitas coisas e gosto delas, mas atualmente tô tentando manter a maioria fora da minha vista… Eu não quero deixar de ter, mas olhar pra tudo todo dia não tem me agradado, sabe? Não sei explicar, mas acho que vai ajudar até no meu tratamento contra a ansiedade, como foi com você!

    http://sweetluly.expressorosa.com/

  • Bruna, seu texto me fez parar pra pensar em uma autoanálise. Eu nunca pensei que talvez as coisas que tenho possam fazer um mal para a minha ansiedade e realmente vou chegar em casa hoje olhando de um jeito diferente para tudo. Não consigo tão imediatamente chegar a uma conclusão, mas obrigada por me apresentar essa perspectiva.
    Fico feliz em saber que você encontrou um jeito de se equilibrar, espero que eu consiga também, já que ando numa fase genuinamente difícil.

    Beijos
    http://www.jadeamorim.com.br

  • Kaila Garcia

    Tudo o que eu tenho e a vida que levo sempre influenciaram e muito na minha ansiedade. Acho que abrir mão de algumas coisas, faz a nossa energia mudar, sabe? Amei seu post, de verdade. Você sempre possui conteúdos incríveis! ❤

    http://www.kailagarcia.com

  • Thaís Regina

    Oi, Bruna! Fico feliz que essa atitude tenha feito você ficar melhor. Ansiedade é uma coisa série, e eu realmente queria que as pessoas entendessem isso e parassem com o ”isso é coisa da sua cabeça”. Sobre essa questão de viver com menos, eu já refleti sobre isso algumas vezes. No momento faço isso com as minhas maquiagens, comprei somente o que uso. E me senti até mais sustentável por isso, porque enquanto eu tinha várias paletas de cores diferentes e não usava nenhuma, elas estavam lá ocupando um espaço em vão.
    Enfim, um beijo!
    http://www.janeladesorrisos.com

  • Ei Bruna, concordo com vc, quanto menos temos menos sofremos por isso. Se livrar de coisas indiretamente tbm é se livrar de sentimentos e apegos, isso nos deixa mais leves e dispostos a pra nossa luta diária contra a ansiedade.

    Outra coisa que tem me ajudado muito é ler e cuidar da espiritualidade. Pode parecer papinho mas compreender um pouquinho dos nossos propósitos como seres vivos no mundo ajuda a aliviar mtos sintomas da ansiedade e depressão, to até começando a yoga pra ajudar ainda mais a equilibrar mente, corpo e espírito e super indico. Ótimo texto como sempre menina! beijão

  • Aline Amorim

    Oi Bruna!
    Semana passada eu estava pensando justamente nas mudanças de pensamento que tive durante esse ano. Parei de comprar muitas coisas que não eram nenhuma necessidade, assim como consegui me desfazer de outras. É muito bom percebermos que não precisamos ter muitas coisas para sentirmos feliz, e que realmente alguns excessos podem atrapalhar.
    Gostei muito do deu post e da maneira que você compartilhou essas mudanças. Beijos

    http://versoaleatorio.blogspot.com.br