Sobre a liberdade de não aderir

Sobre a liberdade de não aderir

Eu costumava me sentir deslocada no meio de outras pessoas. Eu costumava ficar por horas procurando roupas que pudessem fazer com que eu me enturmasse melhor, por outras horas tentando aprender a me maquiar e, ainda, me sentindo mal quando, na minha cabeça, não estava por dentro de determinada situação.

Lembro de um dia em que eu literalmente chorei de ter gastado mais de 100 reais para acompanhar alguns conhecidos em um bar com música ao vivo. Eu odiei o cheiro do lugar, odiei a tal música ao vivo e odiei ainda mais a insistência para que eu me divertisse. “Vamos dançar”, me falavam. Mas, ei, eram meus únicos conhecidos em uma cidade estranha.

Por essas e outras, sempre fui muito vista, principalmente por familiares, como uma pessoa difícil. “Como você é complicada”, “impressionante como você não gosta de nada”, “ai, você precisa começar a sair mais, fazer coisas normais e respirar novos ares”. Perdi as contas de quantas vezes eu, mais do que me sentir, ouvia que era inadequada. Porém, segundo a crença geral, tudo poderia ser facilmente resolvido se eu tentasse um pouco mais.

Querem um exemplo prático? Bebidas alcoólicas. Quando eu era mais nova e recusava cerveja, me perguntavam o motivo e, quando eu dizia que não gostava, me falavam que também não tinham gostado da primeira vez, mas que, com o tempo, se acostumaram. Agora me explica por que eu tenho que me acostumar com uma coisa que não gostei? Nunca fez sentido para mim. Como ficava sem paciência para dizer meu motivo real toda vez, comecei a mentir que estava tomando remédio e não podia. Felizmente, tenho amigos que não se importam (somos todos diferentes, de qualquer forma) então sempre foi bastante tranquilo ficar com a minha água.

Faz sentido que a gente tenha que se explicar toda vez? Não. Mas também não faz sentido ser quem você não é ou fazer coisas que você não gosta ou quer para se sentir parte de um grupo. Você pode ser parte de um grupo sendo diferente de todos, afinal.

E não há nada melhor do que ser você mesmo. Foi por isso que eu parei de aderir a coisas que não tinham a minha cara ou não me traziam alegria. Dizer não para coisas convencionais (ou nem tanto) pode ser um alívio.

Claro que eu não sou 100% segura o tempo todo. Em algumas situações, eu fico com um pé atrás (como num casamento, em que eu continuo me incomodando toda vez com o combo roupa + sapato + maquiagem). É um processo. Mas, para mim, é libertador poder dizer que, não, eu não aceito aquela cerveja porque eu simplesmente não quero. E assim eu entendi que várias coisas podem me trazer esse sentimento de liberdade. Eu aprendi que está tudo bem se eu não aderir a coisas com as quais eu realmente não me importo.

Minha lista? Maquiagens, salto alto, carreira em uma grande empresa, celebrações convencionais como formatura e casamento, festas toda semana, carros, uma tarde no shopping, churrascos, manter contato (simplesmente) por educação e outras coisitas a mais.

E é claro que eu não acho que outras pessoas não possam gostar do que foi listado – o ponto do texto é exatamente atentar para o fato de que devemos fazer o que nos traz alegria e que devemos ser quem nós nos sentimos bem em ser. Se você ama maquiagem, sinta-se livre para usar sempre que quiser.

Só não me peça para eu aderir a algo que não faz sentido pra mim. Eu não pedirei pra você também.

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Renata é uma publicitária na casa dos 30. Está sempre pronta para um dia no parque, uma boa conversa e um livro de ficção. Ela compartilha um pouco de sua vida e seus aprendizados aqui no Moderando.

  • Gabriela Dahmer Coitinho

    Esse post foi feito pensando em mim, pode falar? kkkkk. Sério, bate muito certinho com o que falei no último post que comentei. Sobre quando saí com minhas amigas e elas ficavam me chamando de “idosa” e dizendo “bebe leite” porque eu não queria beber tanto quanto elas. Eu vou compartilhar este TAMBÉM, porque não estou morta e quero que as pessoas se toquem que: NÃO SOU OBRIGADA A NADAAAAAAA MEU AMÔ. kkkk

    Beijos,
    Blog Gaby Dahmer

  • Esse post resume tudo que venho sentindo e pensando, tenho 20 anos e admito que a maior parte desse tempo estive lutando incessantemente para agradar alguém, quem? Não faço a menor ideia. Nunca houve um foco pessoal, sempre quis agradar, a todo o tempo e momento. Admiro pessoas como você, Renata, que souberam dizer não a algo que não gostam e foram firmes ao propósito. Já gastei horrores em lugares que não me identifico, para ‘não fugir do padrão’ ou ‘não ser a chata’. É claro que podemos abrir mão de algumas coisas pelas pessoas que amamos, mas essa questão de se encaixar em qualquer lugar é muito delicada. Acabei perdendo minha personalidade e luto até hoje para reconquistá-la. Desejo muita luz a você e a sua caminhada. Beijo grande!

  • “Só não me peça para eu aderir a algo que não faz sentido pra mim. Eu não pedirei pra você também”

    Como é bom ler isso! Passei a vida me culpando e me perguntando pq algumas pessoas não gostavam de mim como eu sou . E meu erro foi tentar agradá-las, dando uma chance para essa “tal cerveja” que não gosto, por exemplo.

    É tão bom poder dizer NÃO quero e NÃO gosto e ponto.
    Preciso urgentemente a dizer não e me libertar tb <3
    Amei o texto

    http://www.saidaminhalente.com

  • Ana Beatriz Quinto

    Perdi a conta de quantas vezes eu senti a mesma coisa, e isso foi ainda mais presente na minha adolescência. Agora, aos 19 anos, eu estou aprendendo finalmente a aceitar que não preciso me encaixar numa caixa, num modelo ou em coisas que todo mundo faz apenas porque, “eu devo”. Isso também inclui bebida. Quando eu tinha 15 e 16 anos, era realmente um desafio tentar fazer parte de determinados grupos. E eu sempre me sentia excluída e desconfortável. Eu comecei a me sentir segura de verdade quando a maturidade chegou (demorou, mas esse dia veio). Às vezes eu ainda me sinto por fora, mas aprendi a ME RESPEITAR, que é o mais importante, no final das coisas!
    Beijo, Ana (http://elasdisseram.com)

  • Duane Buture

    Isso é tão verdade! Criamos essa ilusão de “precisar” agradar todo mundo, e com isso gastamos tempo, dinheiro, e principalmente, energia. Não vale a pena! Não precisamos nos acostumar com algo que não gostamos só pra aderir. Que cada vez mais pessoas sintam-se livres pra gostar do que gostam e não sentir vergonha por isso <3 Adorei seu texto, Renata.
    Beijos!

    claramenteinsana.com